Raquel Teles Yehezkel
Li na página "História de Dores do Indaiá", do Facebook, o artigo Quem foi Francisco Campos?, do colunista Aristóteles Drummond, publicada há mais de um ano, que me despertou curiosidade e me conduziu a reflexões sobre minha terra, seus filhos e mim mesma. Sobre Francisco Campos, tenho a dizer que temos berço comum: nascemos na mesma casa (provavelmente, no mesmo quarto), situada à Praça São Sebastião, hoje Praça Alexandre Lacerda, em Dores do Indaiá, MG. Quanto a reportagem, o autor fala sobre o homem incomum e inteligente que foi, ministro da Educação e da Justiça no governo de Getúlio Vargas, "Consultor da República". Nasceu em 18 de novembro de 1891 e faleceu em Belo Horizonte, em 1 de novembro de 1968. Segundo a Wikipédia, foi "advogado, professor, jurista e político brasileiro, responsável, entre outras obras, pela redação da Constituição brasileira de 1937, do AI-1 do golpe de 1964 e dos códigos penal e processual brasileiros - que, mesmo com as subsequentes reformas, continuam em vigor". Portanto, foi muito importante na vida de todo Brasil. Por que razão, então, é praticamente desconhecido ou simplesmente ignorado na história do país? Deveríamos deixá-lo no ostracismo devido aos princípios autoritários que defendeu ou repensá-lo com todo o legado político e educacional que deixou?
Uma participante do grupo, Marilene França Carvalho, lembrou que ela frequentou a renomada Escola Normal Francisco Campos de Dores do Indaiá e que nunca estudou sobre esse conterrâneo ilustre que deu nome à escola e à rua principal da cidade. E citou uma frase dele conhecida: "Reprimir os excessos da democracia será o papel político de numerosas gerações", dita em um discurso quando ainda estudante de Direito em Belo Horizonte. Sobre Francisco Luís da Silva Campos, também conhecido como Chico Ciência, o cronista Rubem Braga teria dito: "Toda vez que o sr. Francisco Campos acende sua luz, há um curto-circuito nas instalações democráticas brasileiras".
Mas não foram as ideias e atos políticos desse conterrâneo que mais chamaram a minha atenção na postagem de Antônio Lopes Cançado, mas os comentários entre este e o sr. Paulo Ribeiro de Andrade, que diz:
"Esta rivalidade política que até hoje perpetua, fez com que ficássemos
estagnados no tempo. Aqui, um faz, o outro manda desmanchar. É este
ranço político que contamina tudo. Francisco Campos, desgostoso com a
oposição que aqui encontrou se considerou um exilado de sua própria
terra natal. Nunca mais aqui voltou. Perdeu a cidade, perdemos todos
nós!..." Lopes Cançado, editor e redator do famoso jornal da cidade, "O Liberal", responde: "...que
esse exemplo de perseguição jamais aconteça em nossa Dores do Indaiá.
Só nos resta torcer para que algum dia possa surgir outro Francisco
Campos... " Dr. Marcondes Franco lembra que na reportagem citada "não disseram que, após promover a reforma da educação em Minas, conseguiu inúmeros melhoramentos para Dores, entre
eles, nossa famosa Escola Normal, uma das melhores instituições de
ensino do Estado; dotada até de laboratório. Dores virou importante
polo regional de ensino. Mas, políticos locais o impediram de entrar
ali num significativo evento (...). Sua
terra natal o enterrou vivo. Ele ainda passou por aqui algumas vezes,
ficava na casa do Sr. Cândido Ribeiro ou nas casas de outros amigos, mas
somente em visitas saudosistas". Fiquei pensando no conterrâneo "exilado" de sua própria terra natal...
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| Casa de Clarinda e Belmiro Telles |
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| Raquel c o retrato dos avós |
Em minha última viagem ao Brasil, na passagem de 2013 para 2014, estive em Dores do Indaiá com a família, que se reuniu na Fazenda do Brejão, do meu cunhado José Eustáquio Corrêa, o Taquinho, filho do sr. Luís Corrêa. Com minha irmã, Márcia, visitei o cemitério da cidade, onde descansam dezenas de antepassados meus, levando comigo duas sobrinhas-netas, Laís Teles Corrêa e Júlia Teles de Melo (netas de Olímpia-Taquinho e Mariteles-Fernando, respectivamente) para que conhecessem as próprias histórias. Visitamos, também, na Praça dos Coqueiros, a casa de meus avós Belmiro Telles de Carvalho e Clarinda Theodoro de Mendonça, que preservamos desde a passagem da vovó, a quase 35 anos, com móveis de mais de 80 anos, intactos. Visitamos a dona Luzia e o sr. Paulo R. Andrade, que compartilhou conosco lembranças antigas e me presenteou com dois CDs personalizados com fotos de "Dores do Indaiá do Passado". Participamos da missa de sétimo dia, na Matriz Nossa Senhora das Dores, do amigo da família, o sr. Homero Ribeiro, onde tivemos a oportunidade de rever velhos conhecidos nessa hora difícil para a família Machado Ribeiro. Passeamos pelas ruas, conduzidos pela prima Júnia França Teles e Marconi Pinto da Cunha, homem empreendedor, filho e amante dessa cidade. De volta a minha casa, neste momento em Israel, fico pensando em minha terra natal, onde descansam em berço eterno meus bisavós, avós, tios, primos e meu pai querido, Emídio Teles de Carvalho. E vejo-a com muito bons olhos. Vi a avenida Francisco Campos cheia de comércio vivo; vi casas novas muito lindas e bem construídas, sinal de prosperidade de seu povo; vi a praça em que nasci com crianças brincando, jovens e adultos fazendo esporte; vi homens e mulheres vivendo de seus próprios negócios sem nunca terem se exilado para sempre de seu berço. São essas pessoas que dão continuidade à cidade e à nossa memória coletiva. A elas me curvo por ajudarem guardar as minhas próprias. E que nossos políticos e prefeitos esqueçam as desavenças de eleições passadas e possam sentar-se com camaradagem a mesma mesa, trabalhando juntos, mesmo quando tenham ideias contrárias, pois pensamentos diversos são salutares e inerentes aos homens, e, afinal, todos querem o bem da cidade e das pessoas que nela vivem.
Quanto a Francisco Campos, o amor que meu pai e minha avó dedicavam a nossa cidade e a reverência por Francisco Campos servem-me de referência e fazem-me refletir sobre esse episódio de nossa história, sobre o qual não tenho uma opinião formada, mas convido os velhos e os jovens historiadores a uma análise e pesquisa mais profundas que a minha. Não precisamos ter vergonha da história, ela é o que é e precisa ser contada, com os prós e os contras. Francisco Campos, defensor de uma "democracia com ordem" e do liberalismo econômico, tinha ideias afinadas com o pensamento positivista do início do século, era um homem conectado a seu tempo e aos problemas de sua época e precisa ser analisado sob a perspectiva histórica, como foi feito com Vargas. Não pretendo defender suas ideias, mas pensar o legado jurídico e educacional que deixou aos dorenses, mineiros e brasileiros. Ou prefeririam Minas e Dores esquecê-lo?
Referências
Artigo: "Quem foi Francisco Campos", de Aristóteles Drummond:
https://www.facebook.com/aristotelesluizdrummond/posts/170539389755700
Artigos e comentários no grupo História de Dores do Indaiá, acessado em 15.01.2014:
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=5
Wikipédia: acessado em 15.01.2014:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_Campos

