quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

EU, FRANCISCO CAMPOS E DORES DO INDAIÁ

Raquel Teles Yehezkel

Li na página "História de Dores do Indaiá", do Facebook, o artigo Quem foi Francisco Campos?, do colunista Aristóteles Drummond, publicada há mais de um ano, que me despertou curiosidade e me conduziu a reflexões sobre minha terra, seus filhos e mim mesma. Sobre Francisco Campos, tenho a dizer que temos berço comum: nascemos na mesma casa (provavelmente, no mesmo quarto), situada à Praça São Sebastião, hoje Praça Alexandre Lacerda, em Dores do Indaiá, MG. Quanto a reportagem, o autor fala sobre o homem incomum e inteligente que foi, ministro da Educação e da Justiça no governo de Getúlio Vargas, "Consultor da República". Nasceu em 18 de novembro  de 1891 e faleceu em Belo Horizonte, em 1 de novembro de 1968. Segundo a Wikipédia, foi "advogado, professor, jurista e político brasileiro, responsável, entre outras obras, pela redação da Constituição brasileira de 1937, do AI-1 do golpe de 1964 e dos códigos penal e processual brasileiros - que, mesmo com as subsequentes reformas, continuam em vigor". Portanto, foi muito importante na vida de todo Brasil. Por que razão, então, é praticamente desconhecido ou simplesmente ignorado na história do país? Deveríamos deixá-lo no ostracismo devido aos princípios autoritários que defendeu ou repensá-lo com todo o legado político e educacional que deixou?

Uma participante do grupo, Marilene França Carvalho, lembrou que ela frequentou a renomada Escola Normal Francisco Campos de Dores do Indaiá e que nunca estudou sobre esse conterrâneo ilustre que deu nome à escola e à rua principal da cidade. E citou uma frase dele conhecida: "Reprimir os excessos da democracia será o papel político de numerosas gerações", dita em um discurso quando ainda estudante de Direito em Belo Horizonte. Sobre Francisco Luís da Silva Campos, também conhecido como Chico Ciência, o cronista Rubem Braga teria dito: "Toda vez que o sr. Francisco Campos acende sua luz, há um curto-circuito nas instalações democráticas brasileiras".

Mas não foram as ideias e atos políticos desse conterrâneo que mais chamaram a minha atenção na postagem de Antônio Lopes Cançado, mas os comentários entre este e o sr. Paulo Ribeiro de Andrade, que diz: "Esta rivalidade política que até hoje perpetua, fez com que ficássemos estagnados no tempo. Aqui, um faz, o outro manda desmanchar. É este ranço político que contamina tudo. Francisco Campos, desgostoso com a oposição que aqui encontrou se considerou um exilado de sua própria terra natal. Nunca mais aqui voltou. Perdeu a cidade, perdemos todos nós!..." Lopes Cançado, editor e redator do famoso jornal da cidade, "O Liberal", responde: "...que esse exemplo de perseguição jamais aconteça em nossa Dores do Indaiá. Só nos resta torcer para que algum dia possa surgir outro Francisco Campos... " Dr. Marcondes Franco lembra que na reportagem citada "não disseram que, após promover a reforma da educação em Minas, conseguiu inúmeros melhoramentos para Dores, entre eles, nossa famosa Escola Normal, uma das melhores instituições de ensino do Estado; dotada até de laboratório. Dores virou importante polo regional de ensino. Mas, políticos locais o impediram de entrar ali num significativo evento (...). Sua terra natal o enterrou vivo. Ele ainda passou por aqui algumas vezes, ficava na casa do Sr. Cândido Ribeiro ou nas casas de outros amigos, mas somente em visitas saudosistas". Fiquei pensando no conterrâneo "exilado" de sua própria terra natal...

Casa de Clarinda e Belmiro Telles
Raquel c o retrato dos avós
Em minha última viagem ao Brasil, na passagem de 2013 para 2014, estive em Dores do Indaiá com a família, que se reuniu na Fazenda do Brejão, do meu cunhado José Eustáquio Corrêa, o Taquinho, filho do sr. Luís Corrêa. Com minha irmã, Márcia, visitei o cemitério da cidade, onde descansam dezenas de antepassados meus, levando comigo duas sobrinhas-netas, Laís Teles Corrêa e Júlia Teles de Melo (netas de Olímpia-Taquinho e Mariteles-Fernando, respectivamente) para que conhecessem as próprias histórias. Visitamos, também, na Praça dos Coqueiros, a casa de meus avós Belmiro Telles de Carvalho e Clarinda Theodoro de Mendonça, que preservamos desde a passagem da vovó, a quase 35 anos, com móveis de mais de 80 anos, intactos. Visitamos a dona Luzia e o sr. Paulo R. Andrade, que compartilhou conosco lembranças antigas e me presenteou com dois CDs personalizados com fotos de "Dores do Indaiá do Passado". Participamos da missa de sétimo dia, na Matriz Nossa Senhora das Dores, do amigo da família, o sr. Homero Ribeiro, onde tivemos a oportunidade de rever velhos conhecidos nessa hora difícil para a família Machado Ribeiro. Passeamos pelas ruas, conduzidos pela prima Júnia França Teles e Marconi Pinto da Cunha, homem empreendedor, filho e amante dessa cidade. 

De volta a minha casa, neste momento em Israel, fico pensando em minha terra natal, onde descansam em berço eterno meus bisavós, avós, tios, primos e meu pai querido, Emídio Teles de Carvalho. E vejo-a com muito bons olhos. Vi a avenida Francisco Campos cheia de comércio vivo; vi casas novas muito lindas e bem construídas, sinal de prosperidade de seu povo; vi a praça em que nasci com crianças brincando, jovens e adultos fazendo esporte; vi homens e mulheres vivendo de seus próprios negócios sem nunca terem se exilado para sempre de seu berço. São essas pessoas que dão continuidade à cidade e à nossa memória coletiva. A elas me curvo por ajudarem guardar as minhas próprias. E que nossos políticos e prefeitos esqueçam as desavenças de eleições passadas e possam sentar-se com camaradagem a mesma mesa, trabalhando juntos, mesmo quando tenham ideias contrárias, pois pensamentos diversos são salutares e inerentes aos homens, e, afinal, todos querem o bem da cidade e das pessoas que nela vivem.

Quanto a Francisco Campos, o amor que meu pai e minha avó dedicavam a nossa cidade e a reverência por Francisco Campos servem-me de referência e fazem-me refletir sobre esse episódio de nossa história, sobre o qual não tenho uma opinião formada, mas convido os velhos e os jovens historiadores a uma análise e pesquisa mais profundas que a minha. Não precisamos ter vergonha da história, ela é o que é e precisa ser contada, com os prós e os contras. Francisco Campos, defensor de uma "democracia com ordem" e do liberalismo econômico, tinha ideias afinadas com o pensamento positivista do início do século, era um homem conectado a seu tempo e aos problemas de sua época e precisa ser analisado sob a perspectiva histórica, como foi feito com Vargas. Não pretendo defender suas ideias, mas pensar o legado jurídico e educacional que deixou aos dorenses, mineiros e brasileiros. Ou prefeririam Minas e Dores esquecê-lo?


Referências

Artigo: "Quem foi Francisco Campos", de Aristóteles Drummond:
https://www.facebook.com/aristotelesluizdrummond/posts/170539389755700

Artigos e comentários no grupo História de Dores do Indaiá, acessado em 15.01.2014:
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=5

Wikipédia: acessado em 15.01.2014:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_Campos


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

V.7, N.13: "ARQUIVO MAARAVI": REVISTA LITERÁRIA DA UFMG: 2 POEMAS PUBLICADOS

 Raquel Teles Yehezkel

Janeiro de 2014. Na semana passada, dois poemas meus foram publicados na revista literária semestral "Arquivo Maaravi", da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), uma revista digital que publica artigos que interligam a cultura judaica à escritura brasileira.

1. Capa: Arquivo Maariv, v.7, n.13

http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/maaravi/issue/view/288

2. "Apresentação" e o "Sumário". Meus textos serão encontrados no sumário em "Poema":

http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/maaravi/issue/view/288/showToc

3. "Grandes Festas":poema que escrevi após um evento na casa do meu filho, quando, ao ouvi-lo tocar o "shofar", me despertei para o fato de que estávamos no mês de Elul (corresponde aproximadamente a Agosto), mês de contrição, que antecede as Grandes Festas judaicas, como o Ano Novo (Rosh HaShaná) e o Dia do Perdão (Yom Kipur), sobre os quais descrevo os costumes.

http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/maaravi/article/view/5450/4873

4. "No quintal de minha infância"; recordações de minha infância em Dores do Indaiá como que vividas no Gan Éden (Jardim do Éden)

http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/maaravi/article/view/5449/4872


sábado, 11 de janeiro de 2014

MARIA, JOSÉ E JESUS DE NAZARÉ: UM ROTEIRO NA TERRA SANTA



Raquel Teles Yehezkel 

Nazaré tem um papel de destaque no cristianismo, pois seria a cidade de Maria e de José, e onde Jesus teria passado grande parte de sua vida. Atualmente, além de pontos turísticos como a Basílica da Anunciação (foto ao lado), a cidade possui um complexo hoteleiro, restaurantes, bazares, atrações turísticas capazes de entreter grande número de turistas ávidos por conhecimento sobre o tempo e a infância de Jesus de Nazaré. 

Situada nas colinas da Galileia, Nazaré é a maior cidade árabe em Israel, com aproximadamente 80 mil habitantes. E ao contrário do que se pensa, a maioria de seus moradores não são cristãos nem judeus, mas muçulmanos, e apenas cerca 30% são árabes cristãos. Foi lá que o arcanjo Gabriel teria aparecido à jovem Maria, anunciando que ela seria a mãe de Jesus, o tão esperado Salvador das escrituras sagradas. Por este motivo, em 2012, Nazaré recebeu 1,8 milhão de peregrinos, o que a torna um dos principais centros turísticos da Terra Santa.

O ponto alto do passeio é justamente a Basílica da Anunciação, um complexo moderno, construído em 1967, onde se encontra, no andar térreo, a Gruta da Anunciação, em frente a qual fiéis fazem fila para rezar no que supostamente seria parte da casa de Maria ou Nossa Senhora, como ficou conhecida no mundo todo. As missas são celebradas no segunda andar, em uma igreja ricamente decorada por painéis sobre a anunciação, enviados por diversos países do mundo, inclusive o Brasil: com um lindíssimo mosaico de Nossa Senhora de Aparecida.
A basílica atual é a quarta igreja construída no local, sendo a primeira do século IV, da qual se pode ver parte das ruínas sob os pilares da nova construção. Próximo à Basílica, ligadas por um jardim, encontra-se a Igreja da Carpintaria de São José, construída sobre as ruínas da suposta oficina de José.
 
Mas o passeio por Nazaré não termina por aí, a cidade tem um rico comércio de bazares, mercados e restaurantes com os melhores humus, kebabes, falafel e shauarmas da região. A convite de uma amiga, Mônica Asif, operadora da maior agência de viagens em Israel para peregrinos brasileiros, a Genesis Tour (http://www.genesis-tours.co.il/), tivemos duas maravilhosas surpresas. Primeiro, a visita a um restaurante local, ao lado da basílica, o Holyland Restaurant, onde fomos gentilmente recebidas pelos donos da casa, a família Jabali, e nos foi servida uma refeição completa, com pratos de entrada, prato principal e sobremesa, incluindo o tradicional cafezinho árabe com doces. Preparado para receber grupos enormes de turistas, o restaurante oferece comida internacional com o toque da cozinha local. Reservas podem ser feitas diretamente com o proprietário Alaa Jabali, pelo celular 050-7318834.

A seguir, uma visita ao Centro Internacional de Maria de Nazaré, um complexo arqueológico do tempo de Jesus, com modernas instalações tecnológicas que permitem uma magnífica viagem no tempo, por meio de filmes e técnicas em 3D, recheados de citações bíblicas e cenas de filmes clássicos. Lá, pode-se passar um dia inteiro, tamanho o entretenimento e sossego do lugar. Há uma capela com vista sobre a cidade de Jesus, onde se pode rezar e meditar. Há inclusive café e restaurante para receber grupos de turistas, sob reserva antecipada, que queiram também descansar um pouco em lugar tranquilo e prazeroso.  É possível conversar em português com uma irmã brasileira, Irmã Beatriz, que costuma receber e acompanhar os grupos de brasileiros. O Centro Internacional Maria de Nazaré (www.chemin-neuf.or / nazareth@mariedenazareth.com / +97246461266 ) foi fundado e é sustentado por meio de donativos de fiéis cristãos do mundo inteiro aos Chemin, uma congregação que pretende uma confraternização entre todas as religiões cristãs, sediada na França, com uma filial representativa no Brasil, em Belo Horizonte (ccn.brasil@pucminas.br / +5531/34626806).







 Apesar de Nazaré ser uma cidade segura para os milhares de turistas e seus habitantes serem muito hospitaleiros, agradáveis e alegres, a maioria dos turistas não costumam pernoitar por lá, preferem lugares como o Mar da Galileia, o Tiberíades, ou uma cidade grande frente ao mar, como Haifa. Por isso mesmo, hospedar-se em Nazaré se torna uma ótima opção em preços e conforto para todo tipo de turistas, pois é possível encontrar hospedagem desde o  moderno hotel Golden Crown, com diárias em torno de 167 US$, ou em albergues como o Sisters of Nazareth, próximo à Basílica da Anunciação, também pertencente à família Jabali, que nos recepcionou no Holyland Restaurant.

Um dia inteiro tirado exclusivamente para visitar Nazaré em meio a turbulência da vida, me trouxe conforto e tranquilidade em tempos difíceis em que havia perdido um ente muito próximo e querido no Brasil. Lá encontrei sossego, clima ameno, comida gostosa, entretenimento que me aqueceu o coração, na excelente companhia de minha amiga Daniela Kresch, que escreveu uma matéria sobre o Natal na Terra Santa para o jornal O Globo, que pode ser vista no site: 

http://oglobo.globo.com/boa-viagem/em-israel-um-roteiro-de-natal-por-jerusalem-nazare-10998940



Ramat HaSharon, novembro de 2013

DR. SILVÉRIO COUTO



Não poderia deixar de registrar aqui para a nova geração, as lembranças singelas que guardo de nosso primo Dr. Silvério Couto, que faleceu ontem, 10 de janeiro de 2014, em Belo Horizonte.

Só para vocês entenderem bem sobre o que estou falando, Silvério é da linhagem dos Couto de Luz; família da vovó Olímpia, marcada por uma multidão de homens muito muito bonitos, inteligentes, bons e bem-humorados, como o pai dele, o tio Chiquinho, e o nosso querido tio Zizico (José Couto), para ficar em poucos exemplos.

O pai dele, tio Chiquinho, trabalhou com o tio Manoel, de abençoada memória, na Manoel Bernardes da Rua Espírito Santo com Tupis; era um tio carinhoso e atento a todo familiar que encontrasse. O irmão caçula dele, Francisco de Assis, assessora o Emidinho na Leitura Pátio Savassi; outro, o Élcio, foi secretário do Estado do Rio de Janeiro; o mais conhecido, Ronaldo, chefe da Casa Civil em Brasília; enfim, família de brilhantismo sem par.

Silvério foi um dos homens mais bonitos que conheci. Era também muito bom e gentil, como os Couto da família da mamãe sempre foram, e de onde herdamos um jeito caloroso de ser e o amor pela família. 

Era cruzeirense doente e levava os filhos dele em jogos importantes, claro, mas também em jogos sem nenhuma importância, como Cruzeiro e Caldense, Cruzeiro e Vila Nova. E assim, nos encontrávamos sempre nas cadeiras cativas, nas décadas de 70 e 80, quando acompanhávamos os primos Bernardes nas 8 cadeiras que o tio Manoel tinha no Mineirão Lá estava ele, o dr. Silvério, sempre sorridente, perguntava sobre a família, acompanhado dos filhos, também lindíssimos.

Quando pequenos, se ficávamos muito doentes e os tratamentos caseiros não resolviam, mamãe nos mandava ao consultório do primo Silvério, que era em frente ao nosso prédio, na rua Tupis, no edifício Borges da Costa. Íamos sozinhos, era só atravessar a rua, e ele nos atendia muito gentilmente. Era clínico geral à moda antiga, fazia perguntas detalhadas, sem pressa alguma, e eu, pequena, não entendia para que tantas perguntas que pareciam não ter nada a ver com a doença. Perguntava também sobre toda a família, se mamãe estava bem, se havia se adaptado à vida da cidade grande, se meus irmãos estavam indo bem nos estudos e na livraria... Não nos deixava sair sem um boletim completo, como o pai dele, se mostrava sempre muito interessado. E que fique bem claro, sabendo das dificuldades da mamãe com a meninada em casa, nunca cobrava por essas consultas e o tempo perdido com elas.

Enfim, são essas as singelas lembranças que guardo com carinho desse nosso parente que se foi. E sendo apenas isso, guardo-as com zelo e saudades, com o sentimento positivo de ter sido contemporânea e conhecido pessoalmente esse primo, que, além de tudo, foi um ser humano muito bom em sua passagem pela Terra. Que os anjos o recebam no Céu e que possa agora estar, com toda as honras que merece, na companhia do Senhor, rei do Universo.