Por Raquel Teles Yehezkel
Ao contrário do que se pensa, muitos soldados do exército de Israel não são judeus. Para entender melhor como a diversidade cultural da sociedade se encontra e se integra nas forças armadas israelense, em 22 de outubro de 2013, eu e a jornalista Daniela Kresch estivemos de visita à Kiriá, um complexo de alta segurança que reúne, no coração de Tel Aviv, os centros de comando das “Forças de Defesa de Israel” - a Tzahal (Tzavá Haganá leIsrael) - e o Ministério da Defesa, um prédio moderno, de vidros, com heliporto no alto. Uma das maiores e mais temidas forças armadas do mundo é também uma organização pública poderosa, que reúne judeus, drusos, beduínos, circacianos, cristãos, muçulmanos, além de 300 mil soldados declarados sem religião (a maioria oriundos da antiga União Soviética), na qual se aprende, além de disciplina e batalha, a conviver com as diferenças e as minorias.
Daniela e eu nos encontramos na estação Azrieli, nos subterrâneos do maior Shopping Center de Israel. Do shopping, atravessamos uma ponte sobre a larga avenida Ben Gurion, que nos levou diretamente à Kiriá, sem atravessar uma rua sequer. Do lado de fora nos esperava o soldado Félix, da assessoria de imprensa do exército, um mexicano-israelense, que falou conosco em espanhol e nos conduziu, passando por diversas “barreiras”, a uma sala no 5º andar do Ministério da Defesa, onde fomos apresentadas ao coronel Ahmed Ramiz, responsável pelo Departamento de Minorias no Exército.
Ahmed Ramiz, de 53 anos, pertence à minoria
da população de drusos (133 mil) que vive em aldeias no norte do país. Militar
de carreira, há 7 anos ocupa este cargo. Como parte de uma minoria, no alto da
autoridade de quem serviu e ainda serve ao seu país, afirma que “todas as
unidades do exército estão abertas a todos de forma igualitária, sem distinção”,
seguindo lei aprovada em 1996.
Os drusos, minoria dentro da população
árabe dividida em sua grande maioria entre a tradição sunita e a xiita, sofreram
muitas perseguições ao longo da história. Talvez por isso tenham se
identificado com a luta sionista, posicionando-se ao lado destes desde antes da
formação do Estado de Israel. Em1956 foram integrados à população israelense, com
alistamento obrigatório a partir de 1957. Desde então é possível vê-los em
posições de destaque em todas as unidades do Exército, inclusive nas de mais alta
segurança, como também nos concorridos cursos de pilotos de guerra. Os drusos
se orgulham de sua tradição no exército de Israel e muitos já morreram
defendendo o país. É curioso observar que em proporção o alistamento entre a
população drusa, 82%, é maior que entre os judeus, 75%, isso por que parte da
população de judeus religiosos ortodoxos é liberada do serviço militar - tema
polêmico e doloroso na sociedade israelense, atualmente em debate no Parlamento,
com um projeto de lei que prevê a igualdade de alistamento para todos os judeus.
Outras minorias em Israel não são obrigadas
ao serviço militar, mas 20% dos beduínos, entre um total de 300 mil habitantes
- dois terços em aldeias no deserto de Neguev e um terço na Galileia -, servem
como voluntários nas mais diversas unidades. Deve-se ressaltar um dos trabalhos
de grande reconhecimento público executado por beduínos no exército: a guarda
das fronteiras no deserto e nas montanhas, onde, no dia a dia, desempenham a
função de rastreadores de modo louvável. Ao terminarem o serviço militar, 1 em
cada 9 soldados beduínos continuam a carreira militar.
Dos árabes muçulmanos que possuem
cidadania israelense, apenas 3% servem como voluntários e entre a pequena
população de árabes cristãos (130 mil), apenas 1.5%. Nos dados oferecidos por Ahmed
Ramiz está o fato interessante de não constar nem um atentado terrorista sequer
por parte de árabes cristãos; o que o permite conjecturar que valeria a pena o
Parlamento aprovar uma lei que os obrigassem ao alistamento, colocando-os sob a
proteção do exército de Israel, pois sabe-se que esta população sofre pressão
por parte dos muçulmanos, levando-os a emigrar para outros países, a exemplo
dos cristãos libaneses.
Se o exército consegue aglutinar a diversidade
da população de Israel, de diferentes formações, enquanto estão sob o serviço
militar, por que razão não enxergamos esta
transformação espelhada na sociedade civil?
Ahmed Ramiz tem muitas respostas: “Quando
esses jovens terminam o serviço militar, o exército ajuda-os a reingressar na
sociedade civil por meio de bolsas de estudo universitário, de empréstimos para
compra de terrenos ou montagem de pequenos negócios”, mas estes recursos
tornam-se inexpressivos diante da lista de dificuldades que se impõem.
E, baseado em páginas de estudos, chegou-se
à conclusões sem novidades: a volta à vida nas periferias, à margem da
sociedade dominante, aos lugares sem estruturas básicas, à falta de
equivalência entre os sistemas de ensino, o casamento precoce na sociedade
árabe que impede a carreira acadêmica e impele ao subtrabalho, as mulheres que
não contribuem para a renda familiar, a carência de empregos, enfim, uma lista
que, infelizmente, impede a saída dessas minorias do círculo de pobreza, mais
uma vez, debitada na conta do mau governo.
REFERÊNCIAS ACESSADAS EM 26.10.2013
Minorias em Israel (números): http://he.wikipedia.org/wiki/%D7%9E%D7%99%D7%A2%D7%95%D7%98%D7%99%D7%9D_%D7%91%D7%99%D7%A9%D7%A8%D7%90%D7%9C
Beduínos
em carreira militar: http://www.idf.il/1133-15605-he/Dover.aspx