segunda-feira, 28 de outubro de 2013

AS MINORIAS NO EXÉRCITO DE ISRAEL




Por Raquel Teles Yehezkel

Ao contrário do que se pensa, muitos soldados do exército de Israel não são judeus. Para entender melhor como a diversidade cultural da sociedade se encontra e se integra nas forças armadas israelense, em 22 de outubro de 2013, eu e a jornalista Daniela Kresch estivemos de visita à Kiriá, um complexo de alta segurança que reúne, no coração de Tel Aviv, os centros de comando das “Forças de Defesa de Israel” - a Tzahal (TzaHaganá leIsrael) - e o Ministério da Defesa, um prédio moderno, de vidros, com heliporto no alto. Uma das maiores e mais temidas forças armadas do mundo é também uma organização pública poderosa, que reúne judeus, drusos, beduínos, circacianos, cristãos, muçulmanos, além de 300 mil soldados declarados sem religião (a maioria oriundos da antiga União Soviética), na qual se aprende, além de disciplina e batalha, a conviver com as diferenças e as minorias. 

Daniela e eu nos encontramos na estação Azrieli, nos subterrâneos do maior Shopping Center de Israel. Do shopping, atravessamos uma ponte sobre a larga avenida Ben Gurion, que nos levou diretamente à Kiriá, sem atravessar uma rua sequer. Do lado de fora nos esperava o soldado Félix, da assessoria de imprensa do exército, um mexicano-israelense, que falou conosco em espanhol e nos conduziu, passando por diversas “barreiras”, a uma sala no 5º andar do Ministério da Defesa, onde fomos apresentadas ao coronel Ahmed Ramiz, responsável pelo Departamento de Minorias no Exército.
Ahmed Ramiz, de 53 anos, pertence à minoria da população de drusos (133 mil) que vive em aldeias no norte do país. Militar de carreira, há 7 anos ocupa este cargo. Como parte de uma minoria, no alto da autoridade de quem serviu e ainda serve ao seu país, afirma que “todas as unidades do exército estão abertas a todos de forma igualitária, sem distinção”, seguindo lei aprovada em 1996.

Os drusos, minoria dentro da população árabe dividida em sua grande maioria entre a tradição sunita e a xiita, sofreram muitas perseguições ao longo da história. Talvez por isso tenham se identificado com a luta sionista, posicionando-se ao lado destes desde antes da formação do Estado de Israel. Em1956 foram integrados à população israelense, com alistamento obrigatório a partir de 1957. Desde então é possível vê-los em posições de destaque em todas as unidades do Exército, inclusive nas de mais alta segurança, como também nos concorridos cursos de pilotos de guerra. Os drusos se orgulham de sua tradição no exército de Israel e muitos já morreram defendendo o país. É curioso observar que em proporção o alistamento entre a população drusa, 82%, é maior que entre os judeus, 75%, isso por que parte da população de judeus religiosos ortodoxos é liberada do serviço militar - tema polêmico e doloroso na sociedade israelense, atualmente em debate no Parlamento, com um projeto de lei que prevê a igualdade de alistamento para todos os judeus.
Outras minorias em Israel não são obrigadas ao serviço militar, mas 20% dos beduínos, entre um total de 300 mil habitantes - dois terços em aldeias no deserto de Neguev e um terço na Galileia -, servem como voluntários nas mais diversas unidades. Deve-se ressaltar um dos trabalhos de grande reconhecimento público executado por beduínos no exército: a guarda das fronteiras no deserto e nas montanhas, onde, no dia a dia, desempenham a função de rastreadores de modo louvável. Ao terminarem o serviço militar, 1 em cada 9 soldados beduínos continuam a carreira militar.

Dos árabes muçulmanos que possuem cidadania israelense, apenas 3% servem como voluntários e entre a pequena população de árabes cristãos (130 mil), apenas 1.5%. Nos dados oferecidos por Ahmed Ramiz está o fato interessante de não constar nem um atentado terrorista sequer por parte de árabes cristãos; o que o permite conjecturar que valeria a pena o Parlamento aprovar uma lei que os obrigassem ao alistamento, colocando-os sob a proteção do exército de Israel, pois sabe-se que esta população sofre pressão por parte dos muçulmanos, levando-os a emigrar para outros países, a exemplo dos cristãos libaneses.

Se o exército consegue aglutinar a diversidade da população de Israel, de diferentes formações, enquanto estão sob o serviço militar, por que razão não enxergamos esta transformação espelhada na sociedade civil?

Ahmed Ramiz tem muitas respostas: “Quando esses jovens terminam o serviço militar, o exército ajuda-os a reingressar na sociedade civil por meio de bolsas de estudo universitário, de empréstimos para compra de terrenos ou montagem de pequenos negócios”, mas estes recursos tornam-se inexpressivos diante da lista de dificuldades que se impõem.

E, baseado em páginas de estudos, chegou-se à conclusões sem novidades: a volta à vida nas periferias, à margem da sociedade dominante, aos lugares sem estruturas básicas, à falta de equivalência entre os sistemas de ensino, o casamento precoce na sociedade árabe que impede a carreira acadêmica e impele ao subtrabalho, as mulheres que não contribuem para a renda familiar, a carência de empregos, enfim, uma lista que, infelizmente, impede a saída dessas minorias do círculo de pobreza, mais uma vez, debitada na conta do mau governo.

REFERÊNCIAS ACESSADAS EM 26.10.2013

Alistamento de drusos no exército de Israel: http://www.idf.il/1133-15851-HE/Dover.aspx,
Fórum parlamentar sobre igualdade de alistamento: http://www.shivyon.org.il/
Beduínos em carreira militar: http://www.idf.il/1133-15605-he/Dover.aspx

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

BRASIL TEM NOVO EMBAIXADOR EM ISRAEL




Por Raquel Teles Yehezkel




Henrique da Silveira Sardinha Pinto, mineiro de Belo Horizonte, é o novo embaixador do Brasil em Israel, empossado em 10 de outubro, quando apresentou suas credenciais ao governo israelense em cerimônia oficial na residência do presidente Shimon Peres. Em seu encontro com o presidente, ressaltou a boa relação entre Brasil e Israel, citou o exemplo da boa convivência entre árabes e judeus no Brasil e disse ter orgulho de o Brasil ter participado  na formação do estado judeu com o voto de Oswaldo Aranha na ONU, em 1948.

Acompanhando minha amiga jornalista Daniela Kresch, fomos recebidas em 22 de outubro de 2013, na Embaixada do Brasil em Tel Aviv pelo simpático embaixador Henrique Sardinha, seu secretário Sérgio Ricoy, que o acompanha há mais de uma década, e pelo secretário da Embaixada, Alexandre Campello Siqueira. Em conversa agradável, o embaixador disse ter se sentido lisonjeado profissionalmente ao ser indicado para o cargo, “pois se trata de uma experiência rica e ao mesmo tempo de uma tarefa difícil, devido ao contexto complexo da região”.

Henrique Sardinha Pinto acumulou muita experiência em sua vida diplomática. Além de conselheiro em Nova York, nos últimos 3 anos foi embaixador do Brasil na Argélia, presenciando in locum a Primavera Árabe argelina. Como chefe da Divisão de Promoção Comercial e Investimento do Itamaraty, esteve na comitiva que acompanhou o Ministro Celso Amorim na visita ao Irã em 2008, então sob o comando do presidente Ahmadinejad; no Iraque, participou da evacuação da Embaixada brasileira antes e depois da Guerra do Golfo.
 
Sardinha Pinto, que veio ocupar o lugar deixado por Maria Elisa Berenguer, reconhece que há uma limitação comercial entre os dois países, que Israel é um mercado relativamente pequeno e que a balança comercial é deficitária a favor de Israel, mas acredita que muito ainda pode ser feito no sentido de melhorar esta relação. Um exemplo disso é o acordo de cooperação tecnológica vigente entre os dois países, principalmente nas áreas da agroindústria, tecnologia, medicina e tratamento de água, inserido no Plano Brasil Maior (PBM), que tem como meta aumentar o investimento privado em pesquisa e desenvolvimento (P&D). (Para mais informações veja o site: http://www.desenvolvimento.gov.br/sitio/interna/noticia.php?area=3&noticia=12753).

Com pouco tempo no país, a agenda do embaixador já está bem movimentada. Participou da primeria reunião do Parlamento israelense, que abriu as sessões de inverno, reabertura oficial das sessões parlamentares após as festas do Ano Novo judaico; das comemorações da primeira semana de luto pelo falecimento do líder religioso Rabino Ovadia Yossef, (http://raquelyehezkel.blogspot.co.il/2013/10/rabino-ovadia-yossef-recolhido-ao.html); e participou de um almoço comemorativo no fechamento de um acordo entre o governador do Ceará, Cid Gomes, e o Ministro da Economia de Israel, Naftali Bennett, para a instalação de uma fazenda modelo em Quixeramobim, que receberá equipamentos e treinamento de técnicos israelenses para a implantação de novas tecnologias na agroindústria do Ceará.

Sentados no 30º andar de um edifício moderno, de esquadrias de alumínio e vidro, com uma vista estonteante sobre o mar Mediterrâneo, tendo ao Sul um dos portos mais antigos do mundo, o porto de Jafa/Yafo, cidade que abriga em sua maioria uma população árabe, e ao Norte a efervescente e moderna Tel Aviv, perguntamos ao embaixador a sua opinião sobre o processo de paz entre Israel e os palestinos. Muito cuidadoso com as palavras, fez questão de reafirmar o total apoio do Brasil à iniciativa do secretário norteamericano John Kerry, mas não deixou de expressar sua esperança na conquista de um acordo que, como na experiência brasileira, possa trazer uma convivência pacífica entre esses dois povos de culturas milenares.