terça-feira, 8 de outubro de 2013

RABINO OVADIA YOSSEF, RECOLHIDO AO DESCANSO ETERNO

Por Raquel Teles Yehezkel


Às 22h do dia 7 de outubro de 2013, foi recolhido ao descanso eterno, o renomado Rabino (Rabbi) Ovadia Yossef, aos 93 anos, abençoada seja a sua memória. A multidão que acorreu a Jerusalém até às 18h, hora do enterro, para lhe prestar os últimos tributos, surpreendeu a políticos, a polícia e a imprensa. Os jornalistas, fora do previsto, tiveram que continuar a transmissão em rede nacional, na tentativa de, ao vivo, analisar uma situação para a qual não estavam preparados.

A maioria da população israelense ainda não entendeu a força do evento que levou às ruas de Jerusalém aproximadamente 800 mil pessoas, cerca de 20% da população de judeus, no maior funeral da história do país. Como contemporâneos de uma figura de tamanha estatura espiritual e política, um gênio de sua geração, ainda é cedo para avaliar o seu impacto sobre a sociedade e cultura judaicas, já que uma boa análise demanda distanciamento. O Rabino Ovádia (pronúncia correta) foi representante dos judeus sefaraditas por muito mais de meio século e suas realizações ainda terão de ser analisadas sob a perspectiva histórica.

Muito se diz sobre ele, que talvez seja a figura mais relevante da cultura sefaradita desde o tempo de Maimônides, o Rambam - filósofo, médico e legislador rabínico, que nasceu no século 12 na Espanha. Outras análises o citam como o mais importante legislador desde o Rabino Yossef Karo de Safed, que escreveu o livro Shulchan Aruch, um compêndio das leis judaicas, a Halachá. Mesmo que exageradas, as comparações com estes grandes nomes da cultura judaica, por si só, indicam a estatura do Rabino Ovadia Yossef, que misturava poder político e espiritual.

O Rabbi tinha uma personalidade complexa e controversa, o que dificulta uma análise precisa neste momento, mas a designação que mais me agrada a seu respeito é a de um figther, um lutador. Nasceu no Iraque em 1920 e chegou a Jerusalém com sua família quando tinha apenas 4 anos. Aos 12, foi aceito na respeitada instituição sefaradita de estudos judaicos, a Yeshiva Ben Porat Yossef, da qual se tornou chefe e de onde guiava seus seguidores. Mesmo local em que foi velado e de onde saiu seu funeral, acompanhado ao vivo por milhares de telespectadores. Grande estudioso, considerado um gênio no conhecimento da Torá (Bíblia) e das leis, aos 20 anos foi designado juiz do Rabinato Central de Israel. 

Pertencente a uma escola tradicional de rabinos oriundos da antiga Babilônia, em Israel conhecida como de Bavel (Babel) - diáspora que recebeu judeus provindos da destruição do Primeiro e do Segundo Templo (domínios neobabilônico e romano sobre Jerusalém), como também judeus expulsos da Penísula Ibérica pelos reis da Espanha e de Portugal –, muitas vezes sentenciou contra renomados rabinos do passado, flexibilizando alguns costumes, o que gerou muitas críticas no meio ortodoxo. Entre as sentenças mais polêmicas, estão as a favor das conversões feitas no Exército, do reconhecimento dos falaches oriundos da Etiópia como judeus e do Acordo de Oslo, apoiando a tese de troca de territórios por paz.  

No contexto da formação do Estado de Israel, o Rabbi Ovadia presenciou a decadência da esplendorosa cultura sefaradita em favor do predomínio da cultura asquenazita. Estes, descendentes da Rússia e do Leste Europeu, chegaram ao país em grande número após a Segunda Guerra Mundial, e, acostumados a viver em pequenas comunidades (shteitls), se organizaram em comunidades fechadas, que se tornaram núcleos fortes, como as de Mea HaShearim (Jerusalém), Bnei B’rak e Safed, na preservação dos costumes religiosos e das tradições de seus antepassados, enquanto os judeus sefaraditas, vindos de países como o Iraque, Marrocos, Irã, Egito, Tunísia, Yemen, foram dispersos pelo governo da época nos diversos assentamentos e nos kibutz por todo país, sendo assimilados em parte pelo estilo de vida secular.

Neste sentido, o Rabbi lutou pragmaticamente para restaurar a tradição sefaradita no país. Enxergou, então, que se ficasse fechado apenas à sua Yehsivá e a seus seguidores (hassidim) não conseguiria restabelecer o esplendor da cultura de seus antepassados. Para isso, fundou um movimento social, do qual se formou o partido político Shas, atualmente com 11 cadeiras entre as 120 do Parlamento. E, por meio de poder político, fundou inúmeros colégios (Yeshiva) onde o principal é o estudo da Torá e do Talmude (conjunto de estudos rabínicos), reaproximando o público sefaradita à tradição religiosa. Na realidade, o Rabino Ovadia Yossef fundou uma grande empresa: colégios, instituições que controlam e fiscalizam os alimentos (preparados conforme a Halachá: kosher) e o Partido Shas, do qual, até ontem, foi o mentor espiritual. Em sua esfera encontram-se milhares de pessoas que trabalham ou estudam nessas instituições ou que simplesmente estão ligadas a elas de forma efetiva ou espiritual.

Rabbi Ovadia Yossef trabalhou energicamente em prol de seu empreendimento, além das instituições citadas, escreveu dezenas de livros e deixou sentenças, muitas vezes controversas, quando havia dúvidas em relação a alguma interpretação da Halachá, tarefa complicada num país em que a tradição asquenazita dispõe de inúmeros rabinos ilustres e renomados. Não tinha interesse em ocupar cargo político, a política para ele era o meio de concretizar o seu objetivo: ver o maior número possível de pessoas retornando à tradição religiosa.

Corajoso, direto e respeitado, conseguiu atrair pessoas das mais diferentes esferas: políticos, acadêmicos, asquenazitas, sefaraditas, sionistas, militares, que iam lhe prestar respeito e pedir sua opinião, das quais nunca se esquivava. Era muito caloroso, não guardava distância de quem o procurava e se sensibilizava com as causas dos mais fracos e oprimidos. Assim angariou simpatia de vários segmentos da sociedade, que puderam ser vistos em seu cortejo. E, pelo mesmo motivo, muitas vezes se expressou de forma veemente contra seus opositores, atraindo, também, inimigos.

Uma comoção nacional desse porte diante da perda de um líder espiritual seria algo impensável a trinta ou até mesmo vinte anos atrás, quando o país ainda muito novo lutava para se formar dentro dos princípios laicos do sionismo pioneiro, ideologia dominante na formação do Estado de Israel. A morte do Rabino Ovadia Yossef remete à reflexão sobre a sua luta para restituir vitalidade à tradição sefaradita, ou seja, mais da metade da população deste país.

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