sábado, 16 de novembro de 2013

URI AVNERY - UM ATIVISTA PELA PAZ



Por Raquel Teles Yehezkel

No dia 8 de novembro de 2013, acompanhei minha amiga Daniela Kresch em uma entrevista exclusiva a Uri Avnery para o jornal O Globo, dentro das comemorações dos 90 anos do jornalista, escritor, ex-parlamentar e ativista político pela paz, considerado um radical pelo establishment.

Avnery - que não teve filhos e sua esposa Rachel falecera havia dois anos e meio - morava sozinho em um apartamento modesto, mas muito bem localizado, próximo à orla de Tel Aviv, com vista para o mar. Muito lúcido, não perdeu o fio da meada nem uma vez. Perguntado sobre o segredo de sua juventude, disse com simpatia: "É a minha genética, nada mais".

Nascido na Alemanha em 10 de setembro de 1923 como Helmut Osternmann, imigrou para Israel com a família em 1933, com a chegada do partido nazista ao poder. Em Israel, a família adotou o nome hebraico Avnery, uma homenagem ao irmão Avner, que morreu na Segunda Guerra, lutando pelas forças britânicas que na época dominavam a Palestina.

Em 1938, se alistou no “Irgun”, organizão paramilitar sionista que lutou na formação do Estado judeu, onde foi editor do jornal interno. Em 1942 se desligou do “Irgun” por ter se decepcionado com as táticas de luta e de retaliações do grupo, neste período já escrevia para publicações independentes.

Em 1947 fundou o grupo “Jovem Terra de Israel” (Eretz Israel Hatziyra) que publicava o jornal “Luta” (Maavak) e propôs a união dos países semitas. Na entrevista, disse que nunca chamava esta região de Oriente Médio: "Oriente a quê? Talvez ao Brasil... Prefiro adotar o termo 'países semitas'". Esta ideia serviu de base para propor em 1957 uma federação regional entre Israel e os países vizinhos.

Em 1948, participou da Guerra de Independência como comandante de um batalhão da Brigada Guivat, no sul do país, onde foi ferido já no fim da guerra. Baseado em anotações que fez antes, depois e mesmo durante as batalhas, muitas publicadas no jornal Haaratz, escreveu seu primeiro livro, “Nos Campos da Filisteia”, um sucesso de crítica e de vendas. Ao perceber que sua mensagem não havia sido bem entendida, lançou um segundo livro, “O outro lado da moeda”, com conteúdo antiguerra e duras críticas aos políticos da época. Em um país jovem, sionista, ainda em luta para se firmar, seu livro foi recebido como traição e a reimpressão, proibida, só tendo sido reeditado em 1976 e 1990.

Nesse encontro, Uri Avnery contou que quando foi ferido em 1949, teve muito tempo para refletir e desde então chegou a três conclusões: "Que Israel precisa de paz; que existe um povo palestino; e que Israel precisa fazer paz com esse povo". A partir de então defendeu a ideia de dois países independentes vivendo lado a lado, ligados por laços de interesses comuns, algo como uma federação. O que na época era algo inconcebível, pois "foi criada uma ficção de que a terra de Israel estava vazia. Havia até um lema muito conhecido: 'um povo sem terra para uma terra sem povo'. E como o Movimento Sionista era um movimento moral e muito idealista, reconhecer que havia aqui um povo palestino, significava que estávamos tomando a terra desse povo".

Há alguns anos, a editora Civilização Brasileira publicou no Brasil um livro com suas resenhas: "Outro Israel - Reflexões". Avnery foi editor por duas décadas e um dos proprietários da revista semanal “Este Mundo” (Haolam Haze), que circulou entre os anos de 1950 a 1993. Apesar de ter sido sempre ativista de esquerda e suas ideias consideradas radicais, se elegeu para três cadências no Parlamento israelense (Parlamento, 6, 7 e 9, 1965, 1969 e 1977 respectivamente). É a favor de um estado judeu plenamente secular se opondo radicalmente a influência dos religiosos ortotoxos na vida política. Já sofreu várias ameaças contra sua vida, chegando a ser esfaqueado em 1975.

Foi, provavelmente, o primeiro israelense a se encontrar com Arafat, em 1982 em Beirute e guarda em seu apartamento presentes que recebeu do líder palestino, que segundo ele, teria sido assassinado pelo premier Ariel Sharon: "Sharon nunca escondeu suas intenções". Sobre a relação entre os dois, contou fatos muito interessantes, além da primeira visita em Beirute, a recepção em Ramala, quando Arafat pôde voltar a Israel, dentro do esquema de Oslo, em 1993, em que o líder palestino o percebeu entre os convidados e o colocou ao seu lado. Imagem esta que ele guarda em uma porta-retrato que pode ser visto nas fotos que tirei, bem atrás de onde ele estava sentado. Mais detalhes sobre sua relação com o líder palestino podem ser lidas na entrevista publicada em O Globo:
http://oglobo.globo.com/mundo/nao-ha-duvida-de-que-sharon-matou-arafat-diz-ativista-10763913


Fez parte de vários grupos a favor da paz entre Israel e palestinos, e em 1993 fundou o movimento “Bloco da Paz”, mas não acredita nas negociações mediadas atualmente pelo chancelar norteamericano John Kerry. Pois, segundo ele, "Natanyahu e este governo preferem ficar com os territórios ocupados e os assentamentos à paz". Mas ainda assim é otimista, o que coloca, também, na conta de sua genética: "As críticas a Israel são justificadas, principalmente as que dizem respeito a ocupação dos territórios, à constante situação de guerra e à falta de vontade de chegar a um acordo definitivo. A situação atual é insustentável, por isso, transitória, que pode levar a outra intifada ou ao isolamento de Israel, mas esta situação não é estática... Há apenas duas opções: os territórios ou a paz". E, abrindo uma caixa de madrepérolas, presente que recebeu de Arafat, tira de dentro, enrolado em papéis, um pedaço do Muro de Berlim. Prova de que mudanças ocorrem muitas vezes de modo imprevisível.



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