No dia 8 de novembro de 2013, acompanhei minha amiga Daniela Kresch em uma entrevista exclusiva a Uri Avnery para o jornal O Globo, dentro das comemorações dos 90 anos do jornalista, escritor, ex-parlamentar e ativista político pela paz, considerado um radical pelo establishment.
Nascido na
Alemanha em 10 de setembro de 1923 como Helmut Osternmann, imigrou para Israel com a
família em 1933, com a chegada do partido nazista ao poder. Em Israel, a família
adotou o nome hebraico Avnery, uma homenagem ao irmão Avner, que morreu na
Segunda Guerra, lutando pelas forças britânicas que na época dominavam a
Palestina.
Em 1938, se alistou no “Irgun”, organizão paramilitar sionista que
lutou na formação do Estado judeu, onde foi editor do jornal interno.
Em 1942 se desligou do “Irgun” por ter se decepcionado com as táticas de
luta e de retaliações do grupo, neste período já escrevia para publicações independentes.
Em 1947 fundou o grupo “Jovem Terra de Israel” (Eretz Israel
Hatziyra) que publicava o jornal “Luta” (Maavak) e propôs a união dos países
semitas. Na entrevista, disse que nunca chamava esta região de Oriente Médio: "Oriente a quê? Talvez ao Brasil... Prefiro adotar o termo 'países semitas'". Esta ideia serviu de base para propor em 1957 uma federação regional entre Israel e os países vizinhos.
Em 1948, participou da Guerra de Independência como comandante de
um batalhão da Brigada Guivat, no sul do país, onde foi ferido já no fim da guerra. Baseado em
anotações que fez antes, depois e mesmo durante as batalhas, muitas publicadas
no jornal Haaratz, escreveu seu primeiro livro, “Nos Campos da Filisteia”, um
sucesso de crítica e de vendas. Ao perceber que sua mensagem não havia sido bem
entendida, lançou um segundo livro, “O outro lado da moeda”, com conteúdo
antiguerra e duras críticas aos políticos da época. Em um país jovem, sionista,
ainda em luta para se firmar, seu livro foi recebido como traição e a reimpressão,
proibida, só tendo sido reeditado em 1976 e 1990.
Nesse encontro, Uri Avnery contou que quando foi ferido em 1949, teve muito tempo para refletir e desde então chegou a três conclusões: "Que Israel precisa de paz; que existe um povo palestino; e que Israel precisa fazer paz com esse povo". A partir de então defendeu a ideia de dois países independentes vivendo lado a lado, ligados por laços de interesses comuns, algo como uma federação. O que na época era algo inconcebível, pois "foi criada uma ficção de que a terra de Israel estava vazia. Havia até um lema muito conhecido: 'um povo sem terra para uma terra sem povo'. E como o Movimento Sionista era um movimento moral e muito idealista, reconhecer que havia aqui um povo palestino, significava que estávamos tomando a terra desse povo".
Há alguns anos, a editora Civilização Brasileira publicou no Brasil um livro com suas resenhas: "Outro Israel - Reflexões". Avnery foi editor por duas décadas e um dos proprietários da revista
semanal “Este Mundo” (Haolam Haze), que circulou entre
os anos de 1950 a 1993. Apesar de ter sido sempre ativista de esquerda
e suas ideias consideradas radicais, se elegeu para três cadências no
Parlamento israelense (Parlamento, 6, 7 e 9, 1965, 1969 e 1977 respectivamente). É a favor de um estado judeu plenamente secular se opondo radicalmente
a influência dos religiosos ortotoxos na vida política. Já sofreu várias ameaças
contra sua vida, chegando a ser esfaqueado em 1975.
http://oglobo.globo.com/mundo/nao-ha-duvida-de-que-sharon-matou-arafat-diz-ativista-10763913
Fez parte de vários grupos a favor da paz entre Israel e palestinos, e em 1993 fundou o movimento “Bloco da Paz”, mas não acredita nas negociações mediadas atualmente pelo chancelar norteamericano John Kerry. Pois, segundo ele, "Natanyahu e este governo preferem ficar com os territórios ocupados e os assentamentos à paz". Mas ainda assim é otimista, o que coloca, também, na conta de sua genética: "As críticas a Israel são justificadas, principalmente as que dizem respeito a ocupação dos territórios, à constante situação de guerra e à falta de vontade de chegar a um acordo definitivo. A situação atual é insustentável, por isso, transitória, que pode levar a outra intifada ou ao isolamento de Israel, mas esta situação não é estática... Há apenas duas opções: os territórios ou a paz". E, abrindo uma caixa de madrepérolas, presente que recebeu de Arafat, tira de dentro, enrolado em papéis, um pedaço do Muro de Berlim. Prova de que mudanças ocorrem muitas vezes de modo imprevisível.
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