sábado, 23 de novembro de 2013

A EDUCAÇÃO EM JERUSALÉM ORIENTAL




Por Raquel Teles Yehezkel

Junto a jornalistas de diversos países, atendi ao convite da agência de comunicações Media Central para conhecer de perto os problemas que afetam o sistema educacional em Jerusalém Oriental. De um lado, problemas como a intervenção direta do Ministério da Educação israelense no conteúdo dos livros adotados nas escolas públicas árabes e a falta de salas de aula, que deixa grande parte de jovens árabes à margem do desenvolvimento observado em outros setores da cidade. Do outro, a prefeitura de Jerusalém que não consegue atender à demanda, reconhece as limitações e vê de forma negativa a recusa da população árabe em participar das eleições para o governo municipal.

Jerusalém é uma cidade de muitas cores e de muitas caras, que abriga uma ampla diversidade de populações. Com aproximadamente 750 mil habitantes -  1/3 de judeus seculares, 1/3 de judeus ortodoxos, 1/3 de árabes muçulmanos e 2% de cristãos -, o segmento árabe da população que habita a região Oriental da cidade não se considera parte de Israel, mas cidadãos palestinos que vivem sob ocupação.

Hebraico e árabe são as línguas oficiais do Estado de Israel, e cada segmento da população estuda em sua própria língua. A partir de 1967, quando Israel conquistou o domínio de toda Jerusalém na Guerra dos Seis Dias, foi instituído o currículo israelense em língua árabe em todas as escolas públicas da cidade. Mas, em 1973, cedendo às pressões da população árabe, adotou-se o currículo da Jordânia para as escolas de Jerusalém Oriental. 
Jamil Jibril, palestino, Diretor de Educação de Jerusalém Oriental, nos recebeu em seu escritório em uma escola de segundo grau situada no bairro árabe, dentro das muralhas da Cidade Velha. Sua lista de reclamações contra o governo é imensa: “Israel impõe regras e quer que as aceitemos. Querem ocupar a terra e a mente, fazendo uma lavagem cerebral através do ensino público”, e nos mostra um livro sobre coexistência adotado nas escolas públicas árabes, com símbolos do governo de Israel. “Também não permite que manifestemos a nossa nacionalidade com bandeiras palestinas, nem que contemos a história das jihads (lutas) em nossos livros”. E apresenta uma compilação de todos esses problemas que juntaram em um documento em forma de livro, executado em conjunto com a Universidade de Hebron, o qual foi apresentado à Unesco em 2012. Nele se vê a página de um livro escolar com a bandeira palestina e ao lado a mesma página sem a bandeira; outra, com a presença de um soldado palestino e ao lado, sem o soldado. “Trechos de poemas do mais famoso poeta nacional, Mahmud Darwish, que falam sobre a Intifada (levantes contra o governo de Israel) e até mesmo versículos do Alcorão, um livro milenar, foram cortados segundo o argumento de que incitam à violência”, explica.

Por razões como essas, grande parte dos pais que podem pagar, preferem colocar seus filhos em escolas particulares, onde o governo de Israel não tem acesso aos livros, a deixá-los em escolas públicas sob a supervisão do Ministério da Educação israelense. Segundo os dados fornecidos por Jibril, as escolas particulares contam com 6.500 alunos estudando nos mesmos livros, só que impressos sob a supervisão da Autoridade Palestina. Outros 38.500 estudantes encontram-se matriculados em escolas públicas. Desses, 32.500 estudam nos livros supervisionados e impressos por Israel, distribuídos gratuitamente, os outros 3.000 adquirem seus livros diretamente da Autoridade Palestina através de uma compra coletiva feita pela comissão de pais.

Perguntado se há diferença entre os alunos de escolas particulares ou públicas ao disputarem uma vaga nas universidades de Israel, Jibril diz que não. Que as universidades israelenses aceitam o Tawgihi das escolas árabes, uma bateria de provas unificadas que dão acesso a um certificado de conclusão do ensino médio correspondente ao Bagrut das escolas israelenses, espécie de Enem que confere os certificados que possibilitam o ingresso às universidades.

Perguntado se há estudantes árabes que desejam estudar conforme o currículo de Israel, para melhorar as chances de trabalho, Jibril diz que sim. Que há em Jerusalém duas escolas de ensino básico e três de ensino médio em que o aluno pode optar por estudar em classe que oferece o currículo de Israel paralelamente ao currículo jordaniano, mas que são poucos os que escolhem este percurso. “Todo estudante deve ter o direito de estudar em sua própria língua a sua própria história. Aqueles que buscam melhores oportunidades podem estudar em escolas internacionais espalhadas por Jerusalém, como a Escola Alemã, a Escola Francesa, que ensinam o currículo desses países e também o Árabe, História e Cidadania e que empregam professores palestinos”, uma alusão ao governo municipal que empregaria nas escolas públicas de Jerusalém Oriental não árabes locais, mas árabes com cidadania israelense.

Abdel Kareen Lafi, arquiteto com escritório em Jerusalém Oriental, é diretor de um Comitê de Pais formado em 2005 e reconhecido por Israel e pela Autoridade Palestina. Segundo Lafi, em 2006 o Comitê entrou na justiça contra o governo de Israel para conseguir o direito de gerir a própria educação e ter mais escolas. Em 2007, a justiça ordenou que o governo construísse mais 400 classes até 2011, das quais, segundo ele, foram construídas 290. Lafi afirma que o governo israelense, único concessor de licenças para a construção em Jerusalém, não constrói o número de escolas necessárias, desprezando o crescimento da população árabe, bem como terceiriza o serviço, contratando empreiteiras que alugam escolas, muitas vezes em prédios inapropriados, uma estratégia para aliviar a pressão que vem sofrendo nos últimos anos. “Em 2011, também decorrente de uma ação do Comitê, a justiça instituiu igualdade de investimentos entre as escolas árabes e as escolas judaicas, mas na prática isso não ocorre. Investir na educação dos árabes é uma decisão política e Israel tem uma política diferente para judeus e outra para os árabes. Enquanto os judeus lutam por computador pessoal nas salas de aula, nós lutamos por mais vagas nas escolas.”

Perante o argumento de que não haver árabes na prefeitura, “apenas alguns árabes israelenses que não são de Jerusalém", perguntou-se por que razão não vão às urnas votar e participar do governo municipal, afinal, são 1/3 da população da cidade: “Nós nos encontramos em meio ao fogo cruzado. Se vamos às urnas concordamos que somos parte de Israel, mas nos consideramos palestinos, estamos com nossos irmãos dos territórios ocupados e de Gaza, por isso não votamos”, diz Lafi.

David Koren, assessor para assuntos de Jerusalém Oriental do prefeito Nir Barkat, reeleito recentemente, diz que a prefeitura está atenta às dificuldades da população e tem despendido muito esforço e recursos para mudar a qualidade de vida da população árabe da cidade: “Não fizemos o suficiente, mas a meta é a construção de mais 500 salas de aulas nós próximos 5 anos. Estamos focados em novas classes apropriadas e muito bem estruturadas, mas há vários problemas a serem enfrentados, alguns técnicos, como a desapropriação de terras para a construção de escolas, que muitas vezes se arrasta em processo judicial que demanda tempo. Também propusemos a Bagrut ao lado da Tawgihi. Não temos interesse de fazê-los mais israelenses, mas de oferecer mais oportunidades, apesar de grande pressão política sobre os pais e alunos que fazem esta opção.”

Perguntado sobre a censura ao conteúdo de livros escolares, ele diz que há dois anos a recomendação da prefeitura é tirar dos livros apenas focos que incitam à violência e não mais tocar em questões políticas ou de identidade nacional, mas que a decisão final é sempre do Ministério da Educação.

Segundo Koren, o que a prefeitura propõe não é uma educação politizada, pois todo residente pode escolher livremente em qual canal educar seus filhos. “A conduta municipal é construir passo a passo, fechando fossos e abrindo novas oportunidades. Enquanto houver pais e diretores dispostos a enfrentar a pressão de ativistas políticos, nós estaremos lá para apoiá-los, nós continuaremos a abrir as oportunidades”, diz.

Parece que, apesar de Jerusalém ter sido declarada pelo parlamento capital única e indivisível do Estado de Israel e da prefeitura ter investido muito nos últimos anos na ideia de uma Jerusalém aberta para todas as religiões e para todos os seus residentes, o fosso cultural, político e social que separa judeus e árabes na cidade continua enorme e resistente.

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