Por Raquel Teles Yehezkel
Junto a jornalistas de diversos países, atendi ao convite da agência
de comunicações Media Central para conhecer de perto os problemas que afetam o
sistema educacional em Jerusalém Oriental. De um lado, problemas como a intervenção direta
do Ministério da Educação israelense no conteúdo dos livros adotados nas
escolas públicas árabes e a falta de salas de aula, que deixa grande parte de
jovens árabes à margem do desenvolvimento observado em outros setores da
cidade. Do outro, a prefeitura de Jerusalém que não consegue atender à demanda, reconhece as limitações e vê de forma negativa a recusa da população árabe em participar
das eleições para o governo municipal.
Jerusalém é uma cidade de muitas cores e de
muitas caras, que abriga uma ampla diversidade de populações. Com aproximadamente 750 mil habitantes -
1/3 de judeus seculares, 1/3 de judeus ortodoxos, 1/3 de árabes muçulmanos e 2%
de cristãos -, o segmento árabe da população que habita a região Oriental da cidade
não se considera parte de Israel, mas cidadãos palestinos que vivem sob
ocupação.
Hebraico e árabe são as línguas oficiais do
Estado de Israel, e cada segmento da população estuda em sua própria língua. A partir de
1967, quando Israel conquistou o domínio de toda Jerusalém na Guerra dos Seis
Dias, foi instituído o currículo israelense em língua árabe em todas as escolas públicas da cidade. Mas, em 1973, cedendo
às pressões da população árabe, adotou-se o currículo da Jordânia para
as escolas de Jerusalém Oriental.
Jamil Jibril, palestino, Diretor de Educação
de Jerusalém Oriental, nos recebeu em seu escritório em uma escola de segundo
grau situada no bairro árabe, dentro das muralhas da Cidade Velha. Sua lista de
reclamações contra o governo é imensa: “Israel impõe regras e quer que as aceitemos.
Querem ocupar a terra e a mente, fazendo uma lavagem cerebral através do ensino
público”, e nos mostra um livro sobre coexistência adotado nas escolas públicas
árabes, com símbolos do governo de Israel. “Também não permite que
manifestemos a nossa nacionalidade com bandeiras palestinas, nem que contemos a
história das jihads (lutas) em nossos livros”. E apresenta uma
compilação de todos esses problemas que juntaram em um documento em forma de
livro, executado em conjunto com a Universidade de Hebron, o qual foi
apresentado à Unesco em 2012. Nele se vê a página de um livro escolar com a bandeira
palestina e ao lado a mesma página sem a bandeira; outra, com a presença de um
soldado palestino e ao lado, sem o soldado. “Trechos de poemas do mais famoso
poeta nacional, Mahmud Darwish, que falam sobre a Intifada (levantes
contra o governo de Israel) e até mesmo versículos do Alcorão, um livro
milenar, foram cortados segundo o argumento de que incitam à violência”, explica.
Perguntado se há diferença entre os alunos de
escolas particulares ou públicas ao disputarem uma vaga nas universidades de
Israel, Jibril diz que não. Que as universidades israelenses aceitam o Tawgihi
das escolas árabes, uma bateria de provas unificadas que dão acesso a um
certificado de conclusão do ensino médio correspondente ao Bagrut das
escolas israelenses, espécie de Enem que confere os certificados que
possibilitam o ingresso às universidades.
Perguntado se há estudantes árabes que
desejam estudar conforme o currículo de Israel, para melhorar as chances de
trabalho, Jibril diz que sim. Que há em Jerusalém duas escolas de ensino básico
e três de ensino médio em que o aluno pode optar por estudar em classe que
oferece o currículo de Israel paralelamente ao currículo jordaniano, mas que
são poucos os que escolhem este percurso. “Todo estudante deve ter o direito de
estudar em sua própria língua a sua própria história. Aqueles que buscam
melhores oportunidades podem estudar em escolas internacionais espalhadas por
Jerusalém, como a Escola Alemã, a Escola Francesa, que ensinam o currículo
desses países e também o Árabe, História e Cidadania e que empregam professores
palestinos”, uma alusão ao governo municipal que empregaria nas escolas
públicas de Jerusalém Oriental não árabes locais, mas árabes com
cidadania israelense.
Perante o argumento de que não haver
árabes na prefeitura, “apenas alguns árabes israelenses que não são de
Jerusalém", perguntou-se por que razão não vão às urnas votar e participar do governo
municipal, afinal, são 1/3 da população da cidade: “Nós nos encontramos em meio
ao fogo cruzado. Se vamos às urnas concordamos que somos parte de Israel, mas
nos consideramos palestinos, estamos com nossos irmãos dos territórios ocupados
e de Gaza, por isso não votamos”, diz Lafi.
Perguntado sobre a censura ao conteúdo de
livros escolares, ele diz que há dois anos a recomendação da prefeitura é tirar
dos livros apenas focos que incitam à violência e não mais tocar em questões
políticas ou de identidade nacional, mas que a decisão final é sempre do
Ministério da Educação.
Segundo Koren, o que a prefeitura propõe não é uma educação politizada, pois todo residente pode escolher livremente em qual canal educar seus filhos. “A conduta municipal é construir passo a passo, fechando fossos e abrindo novas oportunidades. Enquanto houver pais e diretores dispostos a enfrentar a pressão de ativistas políticos, nós estaremos lá para apoiá-los, nós continuaremos a abrir as oportunidades”, diz.
Parece que, apesar de Jerusalém ter sido
declarada pelo parlamento capital única e indivisível do Estado de Israel e da
prefeitura ter investido muito nos últimos anos na ideia de uma Jerusalém aberta
para todas as religiões e para todos os seus residentes, o fosso cultural,
político e social que separa judeus e árabes na cidade continua enorme e resistente.
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