Raquel Teles Yehezkel
Carta-resposta a um amigo: Israel não é contra árabes nem contra os palestinos. Dentro da fronteira israelense conhecida internacionalmente pelos limites da "linha verde", há dois milhões de árabes (1/4 da população de Israel) vivendo pacificamente no dia a dia, com direitos civis e políticos iguais aos dos judeus, regidos pela mesma constituição e possuidores da mesma carteira de identidade.
Vamos
tentar por os pingos nos is, sem generalizações. É verdade que Israel
preocupa-se muito em difundir a hostilidade dos países vizinhos que
alimentam o terrorismo na Palestina, na tentativa de mostrar como é
difícil o equilíbrio de forças e a existência nesta região de conflitos.
Mas é verdade também que não se divulgam de forma suficiente os dados
positivos dentro do estado de Israel, conhecido internacionalmente pelos
limites da "linha verde", os limites que seriam, de direito, de Israel.
Os árabes que desde a divisão entre Israel e Palestina ficaram dentro da linha verde são chamados israelenses árabes e são atualmente 2 milhões com identidade israelense. Não são chamamos de palestinos, apesar de que há entre eles milhares de palestinos, pois há também árabes drusos e árabes cristãos, mas a maioria são muçulmanos. Estes têm uma bancada ativa de deputados no congresso, o partido árabe. Todos os 2 milhões podem votar, mas o voto não é obrigatório e muitos judeus e árabes não votam. Os árabes drusos amam Israel, servem o exército desde a fundação do estado, inclusive o novo embaixador de Israel no Brasil, Reda Mansur , é um árabe druso e eu fui sua professora em algumas aulas de português pelo Berlitz. Os cristãos israelenses vivem em paz absoluta, alguns servem o exército outros não - facultativo para toda a população árabe. Parte dos cristãos do norte de Israel vieram das guerras com o Líbano, onde cristãos do sul do Líbano apoiaram Israel, pois sofriam e sofrem a pressão da islamização na região (caso dos libaneses cristãos que emigraram para o Brasil no passado) e tiveram que fugir de lá quando o Hezbollah, grupo jihadista, dominou a região.
Evasão parecida se deu em 1948, quando muitos palestinos deixaram a linha verde, os limites do estado de Israel, e se refugiaram na Jordânia, Síria, Líbano ou Egito. Nesta época, após a II Guerra, o mesmo se deu com os judeus nos países árabes, que foram expulsos do Iraque, Irã, Marrocos, Tunísia e nunca mais puderam colocar os pés em seus países de origem, até os dias de hoje. Vieram de mãos vazias, deixando centenas de anos de história para trás.
Porém, os palestinos que decidiram ficar dentro da linha verde, como em Jaffa, Abu Gush, Faradys, Kfar Kassem, só para citar algumas aldeias do centro (são centenas em Israel), receberam cidadania israelense, com todos os direitos e deveres da constituição e não são chamados de palestinos, mas de israelenses árabes e vivem em segurança e em relativa harmonia dentro de Israel, defendidos pela mesma constituição.
A Palestina seria o que está fora da linha verde, o que ficou na guerra de 1948 com a Jordânia: a Cisjordânia; e com o Egito: Gaza, que por 20 anos dominaram a Palestina designada pela ONU e não fundaram o almejado estado palestino; mas em 1967 lutaram nova guerra contra Israel. Nesta guerra, de 1967, Israel tomou esses lugares (Cisjordânia e Gaza), para ter as fronteiras naturais e seguras do vale do rio Jordão (divisa com Jordânia), do deserto de Sinai (divisa com Egito) e as colinas do Golan, (divisa com a Síria). Desde então começou a luta pelo estado palestino e a ocupação dessas terras palestinas por colonos de Isarel, desenhando o mapa do atual conflito, pois Israel conquistou essas terras e tomou posse das mesmas para sua autosegurança, iniciando o que se chama de ocupação e colonização da Cisjordânia. Aí se encontra a região de Hebron, onde colonos israelenses construíram ao lado a cidade de Kiryat Arba, que defende o direito de rezarem na Caverna Mahpelá, onde estão enterrados Abrão, Sara, Isak, Rebeca, Jacó e Léa, os patriarcas de ambas as nações. Neste monumento foi dividido, e, em horários distintos, para garantir que judeus e muçulmanos possam rezar lá dentro. Mas isso acontece por meio da ocupação do exército de Israel, pois está na Cisjordânia, e eles não querem os judeus rezando lá. É neste cenário delimitado que se encerram os embates atuais. Nesta mesma guerra, iniciada em 1967, tendo os vizinhos árabes o objetivo de tomar Israel, Israel dominou também Jerusalém, até então sobe o domínio e controle do mufti da Jordânia, onde judeus eram proibidos de colocar os pés em toda cidade antiga. Atualmente todas as religiões podem frequentar e rezar em Jerusalém, e o lado leste da cidade é ligado à Cisjordânia, onde fica Belém (Bethlêhem), sob domínio da Autoridade Palestina. O Muro das Lamentações fica no quarteirão judaico, é a parede oeste do Segundo Templo que restou após ser destruído pelos romanos. Noo lugar do antigo Templo de Salomão, a dominação árabe construiu na Idade Média a primeira mesquita, depois reconstruída, e, atualmente conhecida por Al-Aqsa, justamente onde estiveram os dois antigos templos e onde está, crê-se, o altar onde Abrão imolou o cordeiro no lugar de Isaac. Esta área tem entrada e saída para o quarteirão islâmico, e eles têm a posse e direção do lugar garantidos pelo governo de Israel, judeus não devem entrar lá, para sua própria segurança.
Em 1978, Israel devolveu o Sinai e Gaza em acordo de paz com Sadat do Egito, que não quiseram a responsabilidade de Gaza. Em 1994, Israel assinou acordo de paz com o rei Hussein da Jordânia, e eles não quiseram a responsabilidade sob a Cisjordânia, mas mantiveram e mantêm ainda a responsabilidade administrativa sobre os monumentos islâmicos em Jerusalém. Em 1993, Rabin e Peres assinaram acordo com Yasser Arafat, refugiado palestino que no exílio fundou a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e o trouxeram de volta para que os palestinos tivessem um líder à altura que pudesse unir todos os palestinos, e, juntos, assinaram o esquema de Oslo, pelo qual, por alguns anos, se formaria a Autoridade Nacional Palestina até chegar à Palestina estado nacional. Nesse tempo seriam construídas pontes de confiabilidade entre os dois estados e manteriam as fronteiras entre ambos relativamente abertas, o aeroporto de Israel também. A primeira milícia da Autoridade Palestina foi treinada por Israel. Com a morte de Arafat, tomou posse seu vice, Mahmud Abbas. Em seguida houve eleições e o Hamas ganhou largo apoio, dividindo o governo com Abbas. As duas lideranças se desentenderam e fizeram uma guerra entre irmãos, na qual, em duas semanas morreram cerca de 2000 palestinos de forma rude, degolados e mutilados, até o Hamas tomar posse de Gaza sozinho, governando como partido único, desde 2006, trazendo terror a Israel e entre os próprios habitantes de Gaza.
O Hamas continua tendo apoio de larga parte da população palestina, inclusive na Cisjordânia, que por ter uma fronteira extensa com Israel possibilitava muitas penetrações em Israel para atos de terrorismo, como as inúmeras explosões contra civis na década de 1990. Nos primeiros anos de 2000, Israel começou a construir o chamado muro da separação, desenhando a própria fronteira, seguindo em parte a linha verde e partes além dela para abarcar colônias judaicas, e, desde então não houve praticamente atentados terroristas vindos da Cisjordânia. Em contraposição, sob o comando do Hamas em Gaza, o Hamas começou a armazenar e jogar bombas contra cidades israelenses e a construir túneis entre o Egito e Gaza para passar armas, e túneis que vazavam as fronteiras de Israel. São dezenas deles, uma grande obra de engenharia civil, a 25m de profundidade, alguns com mais de 2km, se interligando ou não; por onde transitam de motocicleta em vias subterrâneas, onde o soldado israelense Gilad Shalit ficou preso 5 anos.
Em esquema prévios, como o costurado pelo ministro norteamericano John Kerry, Israel está disposto a ceder, a trocar terras, e falta muito pouco para fechar um acordo. Nos últimos anos há certa tranquilidade com a Cisjordânia sob o governo de Abbas e o comércio e trânsito mais livres entre as partes, passando exatamente o contrário em Gaza. Enfim, uma colcha de retalhos delicada, de difícil costura e compreensão. Uma questão complexa entre um estado nacional que luta para existir e um estado dividido que busca a sua própria identidade e nacionalidade. Pessoalmente, apoio aqui os movimentos pela paz imediata com concessões territoriais e tenho várias críticas ao atual governo, não o apoio nem votei nele. Sou a favor da paz duradoura entre as partes e de um diálogo franco e aberto. Mas nem por isso Israel pode ser acusado de genocida e o Hamas não deixa de ser um grupo jihadista e extremista. Sei que não sou totalmente imparcial, mas busco analisar com alguma nitidez. Só a paz interessa. Paz em troca de paz. Paz. Shalom, Salam!
Israel, 4 de agosto de 2014
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