domingo, 7 de julho de 2013

AFIANDO OS CHIFRES





Há alguns meses, um vídeo  no YouTube de um caprino montês atacando uma zebra inflável em um quintal, com vozes de crianças ao fundo, vem agitando a pequena comunidade de Ben Gurion no Sul de Israel (Negev Jeep tours – Ibex attack Zebra). O que chama a atenção no vídeo é a naturalidade das crianças assistindo à “luta”, como se a convivência entre homem e animal selvagem fosse algo corriqueiro. No entanto, em Ben Gurion, esta convivência parece ser bem natural. Caprinos selvagens da espécie íbex nubiana vivem em relativa harmonia com os moradores locais.
A pequena cidade-escola, com cerca de 2000 habitantes - parte de um sistema de ensino que inclui desde o berçário, passando pelo ensino fundamental e ensino médio (ensino médio ambiental), até o ensino superior filiado à Universidade Ben Gurion de Beer Sheva -, tem vista para a antiga paisagem do Vale Tzin, e  os moradores acostumaram-se a conviver dia e noite com a presença de caprinos monteses circulando pelas ruas e jardins. Porém este ano, por causa da seca, têm chegado grupos maiores em busca de água e de alimento, gerando entre os moradores controvérsias quanto a permanência deles na vila.
Os íbex são poucos exigentes quanto a alimentação e podem sobreviver se alimentando de tudo, folhas de árvores, arbustos do deserto, raízes, inclusive de restos deixados pelo homem. Por isso o íbex filmado no quintal de uma das casas, atrás de pipocas derrubadas no chão, não é algo excepcional na vida dos moradores, mas a vasta divulgação no YouTube trouxe à tona problemas vividos diariamente nesta convivência nada natural.

O íbex divide-se em duas subespécies: o alpino (C. ibex ibex), que vivia no Alpes suíços, extinto pela caça predatória no século XIX, restando apenas um pequeno grupo confinado na reserva florestal de Aosta no norte da Itália, dos quais alguns exemplares foram cedidos ao governo suíço para repovoar as suas montanhas; e o nubiano (C. ibex nubiana), existente atualmente na Arábia Saudita e nas montanhas e cavernas do deserto do Negev e da Judeia. Os machos têm barbicha e chifres curvos que podem chegar a 1.2 m, os das fêmeas são retos e chegam a 35 cm.  Uma particularidade da espécie é sua capacidade de adaptação, que mesmo depois de domesticada retoma rapidamente o estado selvagem quando devolvida ao habitat natural. Daí o conflito surgido entre os moradores que até então se orgulham da convivência pacífica: expulsar ou não os visitantes.

Dezenas de animais circulam diariamente pela vila, consumindo a maior parte do dia na cidade. Sem medo ou inquietação, pisam e destróem jardins, comendo arbustos, flores, grama e até alimentos industrializadas que encontram em lixeiras ou que são oferecidos por moradores e turistas, contrariando as instruções da Autoridade dos Parques e Jardins de não alimentar os animais selvagens. Esta entidade, que tem o íbex como símbolo e, entre outras funções, é a responsável pela contagem anual dos animais selvagens, afirma que não houve crescimento da população de caprinos em Israel, que, na região de Ben Gurion-Sdê Boker, se mantém há alguns anos por volta de 150 caprinos. Por que razão então este ano mais e mais íbex chegam à comunidade? A primeira é que aprenderam a não ver o homem como inimigo, mas como provedor de alimentos. A outra, a intensificação da seca neste último verão (junho-setembro), forçando-os a buscar novas fontes de alimento e de água.

Este processo de aproximação entre os íbex e as comunidades civilizadas também são notados em outras partes de Israel, como em Mitzpê Ramon, no Neguev, e na Escola Sdê Ein Guedi, localizada nas proximidades da reserva ecológica Ein Guedi, no deserto da Judeia, região do Mar Morto. Em entrevista ao jornal israelense Globs, David Zaltz, professor de Ecologia do Deserto na Universidade de Beer Sheva, diz que os íbex aprendem depressa que os seres humanos não vão machucá-los e que a perda do medo faz com que cheguem cada vez mais próximos, acostumando-se a ignorar as pessoas e a desfrutar dos alimentos que elas fornecem. Moradores antigos afirmam que nunca viram como agora os animais de tão perto, ao alcance da mão, observando as pessoas com tamanha tranquilidade que nem pensam em fugir ou se esconder. “É preciso lembrar que todo animal selvagem pode se tornar perigoso em situações específicas. O perigo existe mesmo não tendo ocorrido nenhum incidente envolvendo pessoas, e para previnir incidentes não precisa esperar até que haja algum”, diz Zaltz.

Grande parte dos moradores de Ben Gurion são profissinais da área de Zoologia, Ecologia e Meio-Ambiente, e, por isso mesmo, espera-se que sejam mais tolerantes no convívio com os animais. Mas quando o problema traz prejuízos ao patrimônio, atingindo sistemas de encanamento e jardinagem, muitos se mostram dispostos a abrir mão da convivência direta com a natureza e estão cercando suas casas. Assim, nos extremos, parte da população é a favor de cercar toda a cidade com cerca elétrica, e parte pretende que a cidade funcione como um safári com estação de alimentação para os animais.

Há ainda os que pensam como Haim Berger, morador que filmou o íbex atacando a zebra inflável em seu quintal, doutor em Ecologia com especialização em comportamento animal e dono de uma empresa de turismo ecológico. “A mim me interessa o bem do animal e o que é certo para a sobrevivência dele, e não é saudável que se tornem dependentes dos nossos jardins e de nossas lixeiras. É possível ver nos olhos do íbex se ele é acostumado a ser alimentado. E antes de cercar a vila é preciso ensiná-los novamente a temer um pouco o homem e tomar distância dele, para tirá-los do lixo e devolvê-los à natureza.” O objetivo é mudar os hábitos alimentares deles através de mudanças de comportamento e da relação ao ser humano como fonte de alimento. Este é um processo complexo, a ser feito em etapas, com o mínimo de prejuízo para os animais, mas a situação atual, na qual nada se faz, prejudica-os muito mais”, afirma Berger.

O problema em Ben Gurion chegou à Prefeitura Regional em Ramat HaNeguev, que designou uma comissão formada por moradores e especialistas para encontrar possíveis soluções. Mas a discussão levantada muitas perguntas a serem enfrentadas por aqueles que se propõem o convívio próximo à vida selvagem ou que simplesmente buscam qualidade de vida e sossego junto a natureza: muitas vezes “o pacote” pode ser bem mais complexo.

Tel Aviv 25 de outubro de 2012






MAGAZINE G,  Jornal Globs, 18/10/2012
STRAVAGANZA: História e Mitologia. Acesso em 24/10/2012
WIKIPEDIA: Capra Nubiana. Acesso em 24/10/2012

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