domingo, 7 de julho de 2013

CARMEM: TEMPESTADE DE AREIA NO DESERTO TORNA CARMEM EM CINDERELA



Os israelenses se emocionaram quando, na semana passada, a estrela da ópera local, Naama Goldman, representou o papel de “Carmem”  no megaespetáculo realizado no parque arqueológico de Massada, no deserto da Judeia.

A história de Massada  e de "Carmem"  têm em comum resistências heroicas a um poder maior. No caso dos israelitas, ao domínio romano, após a destruição do Segundo Templo, em 69 EC; em "Carmem", ao poder, representado pelo desprezo a Dom José, seu ex-amante. As duas histórias têm desfecho trágico, com a morte dos heróis. Em Massada os resistentes se suicidam para não caírem nas mãos do inimigo; Carmem é esfaqueada pelo ex-amante.

A produção de “Carmem” em Massada, realizada pela Ópera de Israel , enfrentou vários desafios, entre eles, o de ter uma equipe de 2.500 pessoas trabalhando para criar uma produção teatral em meio às montanhas e o clima desértico. Na semana passada, parece que o clima árido provou ser mais forte que Carmem. Após uma desagradável tempestade de areia durante os ensaios, Anna Malavasi, uma das duas atrizes que representam Carmem,  italiana meio-soprano, declarou não se sentir bem e pediu uma pausa em seu trabalho.

Por causa da extenuante atuação de quatro horas, duas atrizes se revezam nas apresentações.  A segunda Carmem, Nancy Fabiola Herrera, uma espanhola meio-soprano, que já havia representado esse papel em Nova York, Berlim e Londres, estava escalada para o dia seguinte. Assim os israelenses tiveram a grata surpresa de ver a medio-soprano local, Naama Goldman, atuar.

Hila Baggio, outra israelense, que faz o papel de Frasquita, disse que atuar ao ar livre em Massada é ao mesmo tempo mágico e desafiante, pois “o clima seco do deserto prejudica as cordas vocais. Os cantores têm que beber grande quantidade de água e torcer para não precisar ir ao banheiro na hora do show". Além do clima quente, o espaço é muito aberto, dificultando a acústica: "dependemos de microfones, que ampliam as entonações", diz a cantora. E explica que nas casas de ópera a boa acústica dispensa o uso de microfones, e que, normalmente, os movimentos dos maestros podem ser vistos com facilidade, mas em Massada o palco de 3500 metros quadrados é tão grande que ao seu redor foram espalhados monitores para que os cantores possam ver os gestos do maestro Daniel Oren pela TV.

Além do clima, a simples soma de 30 milhões de shekels gastos na produção é outro desafio. De acordo com Hanna Munitz, diretora da Ópera de Israel, esta é a maior produção cultural já realizada no país e uma das maiores do mundo, maior mesmo que “Aída”, encenada no verão do ano passado. A estimativa é de 50 mil espectadores, entre eles 3.500 visitantes do exterior, em seis noites de espetáculo, incluindo o ensaio geral com vestimentas. Os ingresso custam entre 350 a 1300 shekels, e o teatro montado a céu aberto tem capacidade para 7.500 pessoas.

Por estar localizado em um parque arqueológico, toda a infraestrutura do teatro de óperas tem que ser montada e desmontada todo ano, gerando trabalho para 2500 pessoas, durante seis meses. Este ano os designers trouxeram 120 caminhões de areia para criar montes e colinas, 10 cavalos e 7 jumentos para compôr o ambiente de fundo, recriando a atmosfera do século 19 na Espanha.

Segundo Munitz  “A montanha é mágica. A história de Massada é um mito que crescemos ouvindo, isralenses ou não". E que 'Carmem' é um drama universal, pois  “é sobre paixão,  e isso pode acontecer em qualquer lugar, seja em Sevilha ou em Massada".

Um dos momentos mágicos acontece no começo da ópera, quando o público sustém a respiração e as luzes se acendem em estonteante espetáculo. Abaixo de um céu estrelado, entre as vozes dos cantores, percebe-se, no horizonte a frente, a silenciosa sombra da fortaleza de Massada, que se levanta 400 metros acima do Mar Morto que descansa em sua encosta.

Tel Aviv setembro de 2012

Nenhum comentário:

Postar um comentário