Os israelenses se emocionaram quando, na semana passada, a estrela da
ópera local, Naama Goldman, representou o papel de “Carmem” no megaespetáculo realizado no parque
arqueológico de Massada, no deserto da Judeia.
A história de Massada e de
"Carmem" têm em comum
resistências heroicas a um poder maior. No caso dos israelitas, ao domínio
romano, após a destruição do Segundo Templo, em 69 EC; em "Carmem",
ao poder, representado pelo desprezo a Dom José, seu ex-amante. As duas
histórias têm desfecho trágico, com a morte dos heróis. Em Massada os
resistentes se suicidam para não caírem nas mãos do inimigo; Carmem é
esfaqueada pelo ex-amante.
A produção de “Carmem” em Massada, realizada pela Ópera de Israel ,
enfrentou vários desafios, entre eles, o de ter uma equipe de 2.500 pessoas
trabalhando para criar uma produção teatral em meio às montanhas e o clima
desértico. Na semana passada, parece que o clima árido provou ser mais forte
que Carmem. Após uma desagradável tempestade de areia durante os ensaios, Anna
Malavasi, uma das duas atrizes que representam Carmem, italiana meio-soprano, declarou não se sentir
bem e pediu uma pausa em seu trabalho.
Por causa da extenuante atuação de quatro horas, duas atrizes se revezam
nas apresentações. A segunda Carmem,
Nancy Fabiola Herrera, uma espanhola meio-soprano, que já havia representado
esse papel em Nova York, Berlim e Londres, estava escalada para o dia seguinte.
Assim os israelenses tiveram a grata surpresa de ver a medio-soprano local,
Naama Goldman, atuar.
Hila Baggio, outra israelense, que faz o papel de Frasquita, disse que
atuar ao ar livre em Massada é ao mesmo tempo mágico e desafiante, pois “o
clima seco do deserto prejudica as cordas vocais. Os cantores têm que beber
grande quantidade de água e torcer para não precisar ir ao banheiro na hora do show".
Além do clima quente, o espaço é muito aberto, dificultando a acústica:
"dependemos de microfones, que ampliam as entonações", diz a cantora.
E explica que nas casas de ópera a boa acústica dispensa o uso de microfones, e
que, normalmente, os movimentos dos maestros podem ser vistos com facilidade,
mas em Massada o palco de 3500 metros quadrados é tão grande que ao seu redor
foram espalhados monitores para que os cantores possam ver os gestos do maestro
Daniel Oren pela TV.
Além do clima, a simples soma de 30 milhões de shekels gastos na
produção é outro desafio. De acordo com Hanna Munitz, diretora da Ópera de
Israel, esta é a maior produção cultural já realizada no país e uma das maiores
do mundo, maior mesmo que “Aída”, encenada no verão do ano passado. A
estimativa é de 50 mil espectadores, entre eles 3.500 visitantes do exterior,
em seis noites de espetáculo, incluindo o ensaio geral com vestimentas. Os
ingresso custam entre 350 a 1300 shekels, e o teatro montado a céu aberto tem
capacidade para 7.500 pessoas.
Por estar localizado em um parque arqueológico, toda a infraestrutura do
teatro de óperas tem que ser montada e desmontada todo ano, gerando trabalho
para 2500 pessoas, durante seis meses. Este ano os designers trouxeram 120
caminhões de areia para criar montes e colinas, 10 cavalos e 7 jumentos para
compôr o ambiente de fundo, recriando a atmosfera do século 19 na Espanha.
Segundo Munitz “A montanha é
mágica. A história de Massada é um mito que crescemos ouvindo, isralenses ou
não". E que 'Carmem' é um drama universal, pois “é sobre paixão, e isso pode acontecer em qualquer lugar, seja em Sevilha ou em Massada".
Um dos momentos mágicos acontece no começo da ópera, quando o público
sustém a respiração e as luzes se acendem em estonteante espetáculo. Abaixo de
um céu estrelado, entre as vozes dos cantores, percebe-se, no horizonte a
frente, a silenciosa sombra da fortaleza de Massada, que se levanta 400 metros
acima do Mar Morto que descansa em sua encosta.
Tel Aviv setembro de 2012
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