domingo, 7 de julho de 2013

UM FELIZ NATAL DA GALILEIA

Por Raquel Teles Yehezkel

À entrada de Mi'ilya, na Galileia


Em um cenário bíblico, cercada por montes, oliveiras centenárias e rebanhos de caprinos, encontra-se Mi’ilya, uma pequena aldeia de cristãos árabes, encrustada entre as montanhas da Galileia, que remonta aos tempos dos cruzados e dos bizantinos na Terra Santa.

Osama Layus, decoração de Natal
“Venham a mim todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso” (Mateus, 11:28). Ao ler este versículo, em 1996, no momento em que a esposa estava internada para uma cirurgia, Osama Layus, de 43 anos, morador de Mi’ilya, que à época tinha dois filhos pequenos, decidiu que era hora de voltar às raízes de seus antepassados e abraçar o cristianismo de forma definitiva. Hoje os filhos já estão criados, é voluntário da igreja de Mi’ilya e trabalha como técnico de enfermagem no Hospital Carmel de Haifa.

Layus e os outros 3.100 habitantes vivem a 10 km da fronteira do Líbano e a 30 km de Nazaré, cidade onde Jesus passou a maior parte de sua vida. Cercados, de um lado, por Tarshiha, uma aldeia de árabes mulçumos, e, do outro, por Maalot, um vilarejo moderno, de população judaica. O povo de Mi’ilya faz parte dos melquitas da Igreja Católica Ortodoxa Grega, a mais antiga comunidade de cristãos estabelecida no Oriente Próximo desde os primórdios do cristianismo da Antióquia, século I, onde o cristianismo foi introduzido por São Pedro. E ainda que os melquitas estejam ligados à Santa Sé em Roma, os rituais e os costumes permanecem enraizados no cristianismo bizantino da Igreja Católica Oriental, como por exemplo a permissão para padres se casarem e terem filhos.

É quase um conto natalino a comemoração do Natal pela pequena comunidade cristã da Terra Santa, celebrada por uma minoria entre outra minoria: árabes cristãos em um Estado judeu. Israel atualmente possui 7 milhões de habitantes, sendo 1,5 milhão de árabes, entre os quais apenas 150mil são cristãos, a maioria vivendo em aldeias da Galileia e uma pequena parte distribuída, principalmente, entre Jerusalém, Belém, Nazaré, Acre e Haifa.

De uma forma ou de outra, os cristãos árabes da Terra Santa sentem-se pressionados pelo conflito entre Israel e palestinos. “Somos um povo pacifista, não somos a favor da guerra”, diz Layus, sentado confortavelmente no belo salão de sua residência, cercado por quadros de motivos cristãos e por uma recente e rica decoração de Natal.

Nadim Shakour, pároco de Mi'ilya
“Temos que nos esforçar muito para manter a tradição viva entre a população. Como cristãos, nós temos um problema a enfrentar, pois somos uma minoria em Israel e somos uma minoria entre a população árabe”, diz Nadim Shakour, há seis anos pároco responsável pela pequena comunidade de Mi’ilya.

Construída em 1846, a Igreja da Anunciação, restaurada em 2006, encontra-se em um ponto alto da cidade antiga, cercada por montes, de onde se pode ver as ruínas de um forte do período das Cruzadas, do século XII, conhecido por Chateau du Roi, Castelo do Rei.
Presépio em madeira, ao lado da igreja


Estabelecida como aldeia cristã deste o século XVIII, Mi’ilya é hoje na Terra Santa uma das únicas cidades de população totalmente cristã. Para manter esta identidade tão peculiar, o prefeito Eilya Arraf e o pároco Shakour não medem esforços para promover um concorrido festival natalino.

A preparação inicia-se no início de dezembro com a montagem de um presépio ao lado da igreja e a decoração das casas e das ruas. As comemorações começam no dia 14, com um concerto de música sacra realizada por judeus da vizinhança, “Yezemut HaGalil”. Nos dia 18 e 19 a banda local se apresenta em Maalot e em outras cidades do entorno. Dia 21 há o que eles chamam de Carnaval: uma procissão que vai da Igreja até a escola local, num percurso de 2km, e um bazar de comidas típicas e de produtos natalinos. No dia 22, há um concerto de músicas religiosas promovido pela população local. Dia 23 há missas na igreja e em outras instituições, incentivando a população a participar das comemorações. No dia 24 realiza-se a tradicional Missa do Por do Sol, enchendo toda a cercania da igreja. Em seguida, vários Papai Noel passeiam pelas ruas distribuindo presentes entre as crianças. Dias 25 e 26 há celebrações de missas comemorativas. O festival é fechado com uma excursão de peregrinação, de aproximadamente 50 pessoas, por Jerusalém, Belém e Samaria, durante os dias 27, 28 e 29.

Laila Osama, canta canção natalina
Depois de uma preparação de 40 dias de jejum entre a meia-noite e o meio-dia, e uma comida sem carnes no resto do dia, no dia 24, após a Missa do Por do Sol, a família Layus está pronta para a grande Ceia de Natal, com peru assado e charutos recheados em folhas de uva. Mas antes rezam e entoam os tradicionais hinos natalinos de raízes bizantinas. Como assim? queremos saber. Layus sorri e chama sua filha Laila, de 18 anos, que solta a voz em uma melodia alegre, entoada por uma voz firme e suave que enche toda a sala, cheia de jornalistas do mundo inteiro, num momento íntimo e mágico, regado por café turco e doces árabes típicos.

Perguntado sobre o que deseja nesta noite de Natal, ele expressa o mesmo sentimento que carrega o ano inteiro: “Um ano cheio de paz para todos! E, daqui da Galileia, desejo um feliz Natal para todos os cristãos do mundo!”

Tel Aviv 15 de Dezembro de 2012


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